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Sobre sentidos, realidade e simulações

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Recentemente assisti ao vídeo de um especialista falando algo mais ou menos assim: "cuidado com o que os seus sentidos percebem, pois eles podem estar te enganando." O especialista se referia a um desses sites de IA que criam rostos de pessoas que não existem e que por serem muito realistas nosso sentidos estariam sendo enganados por essas imagens. Esse comentário do especialista me chamou a atenção, pois parte de um paradigma que (ainda) domina o conhecimento científico há cerca de 2.500 anos. Seria o paradigma socrático-platônico, para o qual os sentidos existem para nos desviar da razão (ou da verdade), fundando a dicotomia entre corpo x mente e a tradição idealista do conhecimento. Esta, portanto, baseia-se numa abstração, numa idealidade das coisas, já que aquilo que é percebido pelos sentidos é errado. Pois é, mais 2.500 anos e esse paradigma segue de vento em popa. Mas, então, existiria uma outra forma de pensar, distinta dessa? Sim, sim. Para isso, vamos recapitular r...

Escute as feras

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Recentemente terminei a leitura de um livro intitulado Escute as Feras, cuja história gira em torno de uma pesquisadora francesa atacada por um urso na Península de Kamtchatka (extremo oriente russo).  Poderia ser só mais uma história de aventura com final feliz em que os fatos são narrados em sequência cronológica culminando na pronta recuperação da pesquisadora.  Porém a narrativa é escrita pela própria vítima (Nastassja Martin), uma antropóloga estudiosa das populações habitantes daquele local e também do Alasca norte-americano, e que justamente por isso elabora uma interpretação que desloca o eixo da tradição idealista sujeito-objeto (sendo ela obviamente o sujeito e o urso o objeto) para uma interpretação que joga luz sobre o acontecimento, sobre o fluxo, sendo ela e o urso agentes dotados de múltiplas intencionalidades.  E isso é lindamente escrito por ela da seguinte forma: "Nesse dia 25 de agosto de 2015, o acontecimento não é: um urso ataca uma antropóloga france...

Ilíada e modelos (falhos) de liderança

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"Líderes fracassam na Ilíada e as pessoas morrem como resultado." Essa frase está num livro maravilhoso que estou lendo sobre Homero (fruto do trabalho da pesquisadora Barbara Graziosi, que referencio mais abaixo). Obviamente o livro não é focado em liderança corporativa, mas a autora trouxe esse aspecto ao abordar as motivações de três personagens fundamentais da célebre história: Aquiles, Heitor e Agamemnon. Para quem não lembra, Ilíada descreve a queda da cidade de Troia, decorrente da guerra empreendida pelos gregos de então, mais especificamente os aqueus, como consequência do rapto de Helena, esposa de Menelau, por Páris, um dos príncipes troianos. Então, considerando isso,  achei bacana pensar naqueles três personagens como modelos de liderança. Então, vamos relembrar rapidinho quem é cada um deles. Aquiles é filho do rei Peleu com a ninfa Tetis, um ser mitológico. Por sua natureza híbrida, nasce com poderes superiores aos dos homens comuns. Aquiles é o guerreiro perfe...

VUCA, BANI e a natureza mutável do mundo

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VUCA, BANI... a cada semana parece que surge uma nova sigla que vai nos contar como o mundo é ou o estado das coisas no mundo. Bom, se você é novo nessa história, VUCA é o acrônimo para as palavras em inglês Volatillity, Uncertainty, Complexity, Ambiguity (ou seja, Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade), e BANI é o acrônimo para Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible (ou Frágil, Ansioso, Não Linear e Incompreensível). Enquanto VUCA foi um termo criado na década de 1980 para descrever o mundo pós-Guerra Fria, BANI é uma criação recente de um sujeito chamado Jamais Cascio que se define como um futurista (originalmente, os futuristas eram os adeptos do futurismo, movimento artístico surgido na Itália no início do século XX e que foi precursor do fascismo italiano, mas isso é tema para outro post). Que o mundo seja VUCA ou BANI, tanto faz. O que quero trazer aqui é pensar se o mundo é assim só agora ou se é da natureza do mundo ser assim. Então, olha só que interessant...

REALIDADE, COGNIÇÃO e NEGACIONISMO

Um dos temas mais instigantes na atualidade é o fenômeno do "negacionismo",  que caminha colado nas Fake News. Não as notícias falsas propriamente ditas, mas aquilo que leva as pessoas a  questionarem a realidade a tal ponto que chegam a acreditar que a terra é plana e que vacinas inoculam chips em nós ou que modificam o nosso DNA. Procurar entender isso não é fácil. E também não é nada novo.  Não tenho uma resposta precisa para isso (alguém tem?) mas, pensando nesse fenômeno como algo inerente à nossa contemporaneidade e como estudiosa da comunicação, evidentemente fiquei pensando em possíveis linhas de reflexão. Uma delas começa com a seguinte pergunta: o que torna a nossa sociedade possível? Isto é, o que faz com que cada um de nós reconheça a existência de um mundo objetivo comum? O que torna possível que cada um de nós entenda aquela mesa, aquela cadeira, aquele programa de televisão, aquele professor ou aquele profissional como tais?  O que torna isso possível ...

Mente, ambiente e comunicação

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Dando uma olhadinha superficial em textos aleatórios da internet falando do tema "mente", é possível que perceber que muitos fazem analogias da mente humana com um computador. Mas será que essa é uma boa analogia? Um dos autores que mais me encantaram (e que ainda hoje me intrigam) quando resolvi aprofundar meus estudos em Comunicação foi Gregory Bateson. Sua formação inicial foi a antropologia, mas depois ele passou a abordar outros temas, como a psicologia, comunicação e ecologia (numa visão bastante única). Não vou mentir, não é um autor fácil, mas ele fala uma coisa que me intrigou, isto é, que a MENTE opera pela DIFERENÇA DA DIFERENÇA. Wait, what??? Vamos a um exemplo que ele dá: considere a situação de uma pessoa que precisa derrubar uma árvore com um machado. Para que cada machadada seja dada no local necessário para derrubar a árvore, existe um mecanismo de autocorreção mental (ou calibragem) que envolve perceber as diferenças provocadas na superfície do tronco da ár...

Sobre Redes, a origem da Internet e, de novo!, Complexidade

Outro dia escrevi sobre a relação entre (teoria de) sistemas e (teoria da) complexidade. Havia feito uma analogia de um sistema como se fosse uma gota de chuva num lago. Esse é um dos motivos pelos quais, ao poucos, o entendimento do mundo como sistema (ou diversos sistemas) caiu em desuso (embora empreguemos o termo em diversos outros contextos, especialmente no caso dos softwares, ou quando falamos de ecossistemas, mas isso é outra história). Um dos motivos pelos quais isso aconteceu foi justamente a ideia de fronteiras ou bordas, inerentes ao círculo, mas que não fazem muito sentido quando pensamos em redes. E, olha que interessante, lá atrás, ao longo da década de 1960, a pedido do Departamento de Defesa Americano, iniciou-se o desenvolvimento de um sistema de comunicação conectando alguns centros de pesquisa universitários. O princípio (ou finalidade) era muito simples: ele não poderia ser destruído caso fosse alvo de ataques (lembre-se de que a década de 1960 foi marcada pela Gue...