Escute as feras
Recentemente terminei a leitura de um livro intitulado Escute as Feras, cuja história gira em torno de uma pesquisadora francesa atacada por um urso na Península de Kamtchatka (extremo oriente russo).
Poderia ser só mais uma história de aventura com final feliz em que os fatos são narrados em sequência cronológica culminando na pronta recuperação da pesquisadora.
Porém a narrativa é escrita pela própria vítima (Nastassja Martin), uma antropóloga estudiosa das populações habitantes daquele local e também do Alasca norte-americano, e que justamente por isso elabora uma interpretação que desloca o eixo da tradição idealista sujeito-objeto (sendo ela obviamente o sujeito e o urso o objeto) para uma interpretação que joga luz sobre o acontecimento, sobre o fluxo, sendo ela e o urso agentes dotados de múltiplas intencionalidades.
E isso é lindamente escrito por ela da seguinte forma: "Nesse dia 25 de agosto de 2015, o acontecimento não é: um urso ataca uma antropóloga francesa em algum lugar nas montanhas de Kamtchatka. O acontecimento é: um urso e uma mulher se encontram e as fronteiras entre os mundos implodem."
Meu objetivo aqui não é debater a tradição filosófica-antropológica da autora (Philippe Descola, Bruno Latour etc), mas lançar luz sobre a importância desse deslocamento interpretativo.
Numa história comum a narradora contaria como foi chegar naquele local da floresta, ser surpreendida pelo urso, ter parte do rosto arrancado no ataque, retornar à França e recuperar-se.
Esse tipo de narrativa é assimétrico, em que o sujeito-narrador é autorreferente, direcionador de um ponto de vista e polo de maior peso numa relação em que o urso, o outro, o ambiente em que ocorreu o ataque, é o objeto-narrado, que só existe como consequência, obstáculo, algo a ser usufruído; é polo de pouco ou nenhum peso.
O que está em jogo aqui é nossa relação (nós, seres humanos da tradição idealista-ocidental) com o Outro (urso, floresta, pássaros, plantas, árvores, povos indígenas, pessoas LGBTQIA+...) o que diz muito sobre o estado das coisas atuais.
É um modo de ver o mundo que se choca com o dos povos originários, que o compreendem como sendo parte dele, onde animais e plantas não existem para serem conquistados e submetidos à nossa vontade humana, pois também são dotados de intencionalidades que lhes são particulares.
(Alerta de spoiler) Ainda sobre a implosão da noção de sujeito único e cristalizado, um detalhe no livro que não apenas chama minha atenção, mas que condensa todo o debate trazido pela autora é quando ela, já na França, no hospital, recebe a visita de uma psicóloga. Desfigurada pelo ataque, a psicóloga deseja saber como ela se sente, afinal, conforme afirma, em nosso rosto reside nossa identidade. A afirmação causa profundo desconforto em Nastassja, não pelo fato de estar sim desfigurada, mas por atribuir uma única identidade a um rosto. Como ela própria descobre em suas pesquisas, em nossos corpos podem habitar múltiplas presenças. Ao meu ver, isso está diretamente relacionado não apenas à luta das pessoas LGBTQIA+, mas à luta de todos pelo fim de um modelo de sociedade baseado numa heteronormatividade que sempre se mostrou injusto, violento e excludente.
MARTIN, Nastassja. Escute as feras. São Paulo: Ed. 34, 2021.
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