Sobre sentidos, realidade e simulações
Recentemente assisti ao vídeo de um especialista falando algo mais ou menos assim: "cuidado com o que os seus sentidos percebem, pois eles podem estar te enganando." O especialista se referia a um desses sites de IA que criam rostos de pessoas que não existem e que por serem muito realistas nosso sentidos estariam sendo enganados por essas imagens.
Esse comentário do especialista me chamou a atenção, pois parte de um paradigma que (ainda) domina o conhecimento científico há cerca de 2.500 anos. Seria o paradigma socrático-platônico, para o qual os sentidos existem para nos desviar da razão (ou da verdade), fundando a dicotomia entre corpo x mente e a tradição idealista do conhecimento. Esta, portanto, baseia-se numa abstração, numa idealidade das coisas, já que aquilo que é percebido pelos sentidos é errado.Pois é, mais 2.500 anos e esse paradigma segue de vento em popa. Mas, então, existiria uma outra forma de pensar, distinta dessa? Sim, sim. Para isso, vamos recapitular rapidamente Epicuro (+ ou - séc. III a.C.) e o epicurismo.
Por muito tempo, o epicurismo esteve associado ao hedonismo, isto é, o culto aos prazeres do corpo, embora o que Epicuro estivesse falando seria a respeito do prazer de ter uma vida serena, tranquila. Daí ele ter fundado uma escola conhecida na Antiguidade como O Jardim, onde lecionou até sua morte. Essa escola, ao que tudo indica, teria sido bastante inclusiva, ensinando a mulheres, escravos e estrangeiros, indivíduos que não se enquadravam no conceito de cidadãos da polis grega.
Após a morte de Epicuro seus ensinamentos perduraram marginalmente ao longo do tempo, chegando a Lucrécio, um poeta latino do séc. I a. C., que escreveu um livro chamado De Rerum Natura (traduzido como Da Natureza). Vamos ver o que ele fala aí sobre os sentidos e as percepções.
Após a morte de Epicuro seus ensinamentos perduraram marginalmente ao longo do tempo, chegando a Lucrécio, um poeta latino do séc. I a. C., que escreveu um livro chamado De Rerum Natura (traduzido como Da Natureza). Vamos ver o que ele fala aí sobre os sentidos e as percepções.
Segundo ele, é preciso confiar nos sentidos e se uma coisa de perto parece quadrada, mas de longo parece redonda, é porque há uma explicação para isso, embora talvez, no momento, desconheçamos o motivo para isso ser assim. Por isso, para ele, a ciência deve estar conectada ao mundo percebido através dos nossos órgãos de sentido, como a audição, o olfato, a visão e, principalmente, a sensação táctil. Assim, nossa percepção é, então, a fonte da razão.
Esse entendimento de Lucrécio e que se origina lá atrás dos pré-socráticos, vai passar por diversos pensadores (Spinoza, Nietzsche) e culminar lá na frente, isto é, no séc. XX, na fenomenologia (tema de um post futuro).
Mas, então, como explicar o rosto criado por uma IA e que não existe? Uma chave seria o conceito de hiperrealismo, de Jean Baudrillard. Segundo ele, o mundo tornou-se uma simulação de si, fabricando referenciais e signos desconectados do real. No hiperrealismo, a simulação precede o real, como se o modelo precedesse o aspecto único e singular do original. E não é exatamente isso que essa IA faz? Quando ela cria um rosto que interpretamos como real, ela cria um modelo que já não se baseia num referencial.
Bom, isso é conhecido como crise do regime de representação, ou seja, quando a linguagem, que justamente criamos para podermos estabelecer uma comunicação, já não faz mais sentido, pois não existe mais equivalência entre o signo e o real.
Se antes aquilo que compreendíamos como realidade era uma espécie de acordo entre nós (eu vejo uma mesa diante de mim, você, estando no mesmo ambiente, também a vê e, portanto, entendemos que existe uma mesa em nossa realidade), agora essa realidade é mediada por um dispositivo, mais especificamente pelo celular. Portanto, não sabemos mais se aquilo sobre o qual eu estou falando, ou você está falando, se refere à mesma coisa.
Daí o fenômeno das fake news. Ou dos influencers que se suicidam em suas próprias lives (sim, já temos relatos disso, inclusive no Brasil).
Portanto, o problema não está nos nossos sentidos que veem uma imagem de uma pessoa e que a interpretam como real, mas numa sociedade que cria simulações para nos deslocar do que é real.
O tema é vasto. Por isso, paro aqui recomendando filmes já clássicos sobre o tema: Blade Runner (1982), Matrix, Tron (1982)...

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