Mente, ambiente e comunicação

Dando uma olhadinha superficial em textos aleatórios da internet falando do tema "mente", é possível que perceber que muitos fazem analogias da mente humana com um computador. Mas será que essa é uma boa analogia?


Um dos autores que mais me encantaram (e que ainda hoje me intrigam) quando resolvi aprofundar meus estudos em Comunicação foi Gregory Bateson. Sua formação inicial foi a antropologia, mas depois ele passou a abordar outros temas, como a psicologia, comunicação e ecologia (numa visão bastante única).


Não vou mentir, não é um autor fácil, mas ele fala uma coisa que me intrigou, isto é, que a MENTE opera pela DIFERENÇA DA DIFERENÇA. Wait, what???


Vamos a um exemplo que ele dá: considere a situação de uma pessoa que precisa derrubar uma árvore com um machado. Para que cada machadada seja dada no local necessário para derrubar a árvore, existe um mecanismo de autocorreção mental (ou calibragem) que envolve perceber as diferenças provocadas na superfície do tronco da árvore.


Essa percepção, por sua vez, envolve diferenças das ondas luminosas que chegam nos olhos, diferenças no nervo ótico e nos impulsos neurais que capturam essas diferenças. O mecanismo envolve, ainda, diferenças no impulso muscular a fim de movimentar o machado e atingir o tronco.


Resumidamente, o sistema mental envolvido no corte da árvore não diz respeito a uma mente de uma pessoa que manipula um machado a fim de derrubar a árvore, mas sim a uma mente que compreende as diferenças no entorno formado pelo corpo + ferramenta + árvore e que articula cada um desses elementos.

Isso é bastante complexo de ser entendido porque um fenômeno como esse é expresso pela LINGUAGEM da seguinte forma: “Fulano cortou a árvore” ou “Eu cortei a árvore”, o que implica reconhecer que "fulano" ou "eu" estão totalmente apartados de "árvore" e de "machado". Mas, se estamos totalmente apartados, como é possível que a árvore seja cortada???


Bateson usa esse exemplo pra mostrar que, no âmbito das "CIÊNCIAS DURAS" (como na física ou biologia, por exemplo) essa separação pode até fazer sentido, mas no âmbito da COMUNICAÇÃO não. (Novamente temos a questão da COMPLEXIDADE, em que as coisas estão "costuradas".)


Como visto no exemplo, só é possível cortar a árvore, porque mente + árvore + machado operam formando um ambiente, ou, melhor dizendo, são as diferenças da árvore e do machado que geram informação e que, portanto, fazem parte do mundo da comunicação.


E é daí que surge o conceito batesoniano de ECOLOGIA DA MENTE, que pretendo abordar em um post futuro (pois ainda estou estudando esse tema).


Portanto, sob essa ótica, e conectando com o início desse post, analogias da mente como um computador são completamente absurdas, já que um computador não é dotado de órgãos de percepção que possibilitem operar pela diferença da diferença.


#gregorybateson #ecologyofmind



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