REALIDADE, COGNIÇÃO e NEGACIONISMO
Um dos temas mais instigantes na atualidade é o fenômeno do "negacionismo", que caminha colado nas Fake News. Não as notícias falsas propriamente ditas, mas aquilo que leva as pessoas a questionarem a realidade a tal ponto que chegam a acreditar que a terra é plana e que vacinas inoculam chips em nós ou que modificam o nosso DNA.
Procurar entender isso não é fácil. E também não é nada novo.
Não tenho uma resposta precisa para isso (alguém tem?) mas, pensando nesse fenômeno como algo inerente à nossa contemporaneidade e como estudiosa da comunicação, evidentemente fiquei pensando em possíveis linhas de reflexão.
Uma delas começa com a seguinte pergunta: o que torna a nossa sociedade possível? Isto é, o que faz com que cada um de nós reconheça a existência de um mundo objetivo comum? O que torna possível que cada um de nós entenda aquela mesa, aquela cadeira, aquele programa de televisão, aquele professor ou aquele profissional como tais?
O que torna isso possível é uma CONVENÇÃO, um CÓDIGO, uma LINGUAGEM COMUM entre todos.
Historicamente, ao longo de séculos e séculos de convivência, convencionamos reconhecer as coisas como elas são porque, afinal, isso seria muito prático e garantiria a sobrevivência, certo? Então, reconhecemos um cachorro quando o vemos porque assim o convencionamos. Sabemos que cachorros e gatos são diferentes porque, claro, são diferentes e fomos capazes de identificar isso e atribuir a cada um um nome diferente.
Porém, para que isso fosse possível, fomos obrigados a, tendo todos percepção do cachorro e do gato, chegarmos a um acordo: este é um cachorro e aquele é um gato.
Ou seja, foi necessário que nos encontrássemos nesse mundo objetivo, compartilhado, concreto, em que eu, você e ele, todos tocamos no cachorro (ou lemos a palavra “cachorro”) e compartilhamos uma experiência comum a respeito dele.
Agora, vamos extrapolar isso para o mundo de modo geral. O que acontece quando deixamos de nos encontrar nesse mundo objetivo? O que acontece quando o código que estabelecemos não parece mais ser suficiente, ou parece não mais fazer sentido, dada a complexidade que a realidade assumiu? Isso é o que muitos autores chamam de “crise das representações”.
E o que teria motivado essa situação? Que tal a televisão, o rádio ou o cinema? Que tal tudo junto? Ou seja, os chamados “meios de comunicação de massa”.
Não vou mentir, estou simplificando bastante questões que são estudadas e re-estudadas há já muito tempo, praticamente desde que surgiram tais meios de comunicação, ou seja, mais de 100 anos, fácil, fácil.
Agora, olha só: o que acontece quando, nesse contexto de crise do código, introduzimos um outro dispositivo de comunicação que fica acoplado a nós ininterruptamente, tipo o celular? Será que a realidade passa a ser percebida de um modo cada vez mais subjetivo? Ou melhor: quão subjetiva se torna essa realidade quando a percepção que temos sobre ela é cada vez mais próxima do espelho de Narciso (autorreflexivo) que uma janela para a troca com o outro?
É nesse sentido que, na minha opinião, ou por esse enveredar que percorro, temos uma crise cognitiva ou um efeito massivo de algo conhecido como “dissonância cognitiva”. Daí, para o fenômeno do NEGACIONISMO basta um pulinho. Ou um clique.
O tema é complexo. Como eu escrevi, abordei resumidamente questões que são debatidas há muuuuuito tempo e que, portanto, não se encerram aqui.
Num próximo post, relacionado a esse tema, quero trazer dois pensadores de que gosto muito: Jean Baudrillard e F. Nietzsche.
#negacionismo #dissonanciacognitiva
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