Sobre o Lifelong Learning, longevidade e curiosidades

Uma das mais recentes "sensações de verão" no campo da Educação é o que se chama "Lifelong Learning". O termo parece complexo, mas nada mais é que a ideia de permanecer estudando ao longo de toda a vida, mesmo em idades avançadas.

Eu falei "sensação do verão", mas, na verdade, espero que esse fenômeno ultrapasse possíveis sazonalidades e seja, sim, perene. Imagine um mundo em que as pessoas continuem estudando e se aperfeiçoando até seu último suspiro!? Ideia maravilhosa!

Se há alguns anos havia um estranhamento quando estudantes universitários se deparavam com colegas muito mais velhos na sala de aula, hoje isso se torna cada vez mais comum. 

Obviamente o Lifelong Learning está relacionado ao aumento da longevidade e ao aumento das oportunidades de se continuar estudando mesmo quando já se está aposentado. 

Mas o que eu gostaria de falar mesmo é sobre essa longevidade. 

Porque hoje vivemos em sociedades em que as pessoas alcançam idades acima dos 70, 80 anos temos a sensação de que isso sempre foi assim, ou de que isso é natural, o que é muito distante da trajetória humana no planeta. 

Um aspecto evolutivo interessante reside no fato de o bebê Sapiens nascer antes de ter o cérebro totalmente formado. E isso foi absolutamente necessário para preservação da sobrevivência da mãe. Isso porque a cabeça do Sapiens se tornou tão grande, como decorrência do aumento do cérebro, que se se aguardasse ele amadurecer completamente para daí nascer nenhuma mãe sobreviveria.

Ok, mas o que isso tem a ver com longevidade e aprendizagem? 

O cérebro infantil continua se desenvolvendo por cerca de mais 7 anos, o que requer, portanto, que exista um grupo (estabelecido por laços sanguíneos ou não - deixo essa questão para os antropólogos) que proteja, crie, eduque e prepare as crianças para as fases seguintes de desenvolvimento. 

O que eu gostaria de trazer, então, é que justamente por causa do fortalecimento do grupo é que foi possível que os humanos começassem a alcançar idades mais avançadas. Essa é uma hipótese levantada por diversos pesquisadores (ref. + abaixo) que afirmam ainda que isso ganhou força no Paleolítico Superior (entre 40 mil e 10 mil anos atrás), e que a presença de indivíduos mais velhos nos grupos teriam desempenhado papel fundamental tanto na aprendizagem propriamente dita, quanto na evolução demográfica humana. 

Ou seja, GRUPOS HUMANOS COM LAÇOS FORTES possibilitam que as pessoas atinjam IDADES MAIS AVANÇADAS (pois ficam mais protegidas dos perigos do ambiente e de reveses da sobrevivência) o que faz com que essas mesmas pessoas possam TRANSMITIR ENSINAMENTOS, EXPERIÊNCIAS e APRENDIZAGENS para as crianças do grupo, que assim perpetuam esse conhecimento para as gerações seguintes. 

E um aspecto incrível nessa história é que isso possibilitou que as MULHERES, mesmo APÓS A MENOPAUSA, continuassem vivendo, o que é distinto nos demais primatas humanoides (como os chimpanzés, gorilas, orangotangos), cujas fêmeas morrem pouco após entrarem nessa fase da vida.

Vocês conseguem imaginar um mundo sem avós? E sem avós ensinando suas netas sobre as sutilizas da vida?  

Achei isso tudo fascinante quando li, embora tenha entrado em choque quando me deparei (em outro contexto) com as estatísticas de longevidade das populações do Oriente Médio na Antiguidade. Um adulto, por exemplo, atingia, quando muito, 40 anos de vida! 

Bom, isso fica para um outro post. 

Referência bibliográfica que utilizei e recomendo fortemente, até para fugir um pouco do Yuval Harari: CONDEMI, Silvana; SAVATIER, François. As últimas notícias do Sapiens: uma revolução nas nossas origens. São Paulo: Vestígio, 2019. Esses autores, por sinal, tem um outro livro sobre o Neandertal, que, esse sim, é realmente fascinante.

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